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Julho das Pretas da RMN-PR 2026 - Dra. Dora Bertúlio é a homenageada

Julho das Pretas da RMN-PR 2026 - Dra. Dora Bertúlio é a homenageada

Antes de falarmos sobre quem foi a Dra. Dora de Lima Bertúlio – a Dora Bertúlio –, preciso adiantar uma coisa: se você foi uma aluna ou um aluno negro cotista de universidade, assim como a jornalista que escreve este perfil, saiba que sua trajetória também se deve à luta e à resistência da Dra. Dora. 

Dora de Lima Bertúlio foi uma mulher negra militante do movimento negro, sendo uma das principais referências na luta contra o racismo e na defesa da igualdade racial no Brasil. A Dra. Dora fez a passagem em 14 de fevereiro de 2025, mas permanece como um legado vivo na luta pela justiça racial e pelo acesso à educação. 

Natural de Itajaí, em Santa Catarina, Dra. Dora teve uma infância tranquila, sendo a única menina entre cinco irmãos. Foi fora de casa que conheceu as mazelas do racismo. Ainda na juventude, teve a vida impactada pela ditadura militar, que atingiu parte de sua família e levou seu pai, sindicalista do movimento dos trabalhadores, a uma prisão injusta. Após esses episódios, a família mudou-se para Curitiba. 

Na capital paranaense, Dra. Dora trabalhou como servidora concursada da Prefeitura de Curitiba até ingressar, na segunda tentativa, no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Durante a graduação, participou ativamente do movimento estudantil, construindo sua militância em plena ditadura militar. 

Depois de formada, mudou-se para Cuiabá, no Mato Grosso, onde constituiu família, teve filhos e ajudou a construir o movimento de mulheres negras cuiabanas. Ao longo da carreira, também ocupou importantes cargos públicos, como Procuradora-Geral da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná e da Fundação Cultural Palmares, além de atuar no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Foi ainda professora em universidades de Santa Catarina, Mato Grosso e Paraná. 

Na UFPR, atuou como jurista, professora e procuradora-geral da universidade. Foi nesse período que desempenhou um papel decisivo para a implantação das cotas raciais e sociais na instituição, abrindo portas para que milhares de estudantes negros tivessem a oportunidade de acessar o ensino superior e, transformar os rumos de suas vidas. 

Sua atuação também contribuiu para a implementação de políticas de ações afirmativas em universidades federais e estaduais de diferentes estados, como Alagoas, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Pará, Amazonas e Sergipe. 

A trajetória da Dra. Dora é exemplo de coragem, determinação e compromisso com a justiça social. Dedicou sua vida à defesa dos direitos da população negra, enfrentando o racismo e todas as formas de discriminação. 

Em 2004, sua atuação foi decisiva para que a UFPR se tornasse pioneira na adoção de políticas afirmativas sociais e raciais, por meio da Resolução nº 37. Após seu falecimento, a universidade prestou homenagens e destacou que Dra. Dora marcou a história da instituição centenária com sua dedicação e compromisso com a justiça. 

Pelo que se sabe, uma das últimas entrevistas concedidas pela Dra. Dora foi registrada no livro Mulheres com N Maiúsculo — obra consultada como uma das fontes deste texto. A conversa foi realizada por uma jornalista negra, cria da UFPR e também cotista, assim como quem agora escreve este perfil. Talvez seja apenas uma coincidência. Ou mais uma prova de que os caminhos abertos por Dra. Dora seguem produzindo novos encontros, novas histórias e novas possibilidades. 

Neste Julho das Pretas, em que ecoamos o mote "Reparação e Bem Viver", tema que propõe a continuidade do legado da Marcha das Mulheres Negras, homenageamos Dra. Dora Bertúlio por sua coragem em lutar e resistir por uma política pública que transformou a vida de milhares de pessoas negras, garantindo reparação por meio de um direito essencial: o acesso à educação. Pela Dra. Dora e por tantas outras mulheres negras, reafirmamos que as cotas raciais são reparação, são direito e uma política pública necessária. 

Para sempre, Dra. Dora Bertúlio, presente! 

(Foto: Marcos Solivan/Sucom/UFPR)

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