Texto de Patrícia Andréia Muniz No dia 23 de março de 2018 recebi no Facebook um convite para um evento em minha cidade intitulado: Marielle Vive. Pensei o quão curioso era em Toledo, cidade do oeste do estado do Paraná, formada por colonos sulistas, considerada a “Capital do Agronegócio, ter um evento em memória de […]

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#Marielle Franco

   

#Mulheres Negras

   

Texto de Patrícia Andréia Muniz

Agência Brasil EBC
Fotógrafo Guilherme Cunha

No dia 23 de março de 2018 recebi no Facebook um convite para um evento em minha cidade intitulado: Marielle Vive. Pensei o quão curioso era em Toledo, cidade do oeste do estado do Paraná, formada por colonos sulistas, considerada a “Capital do Agronegócio, ter um evento em memória de uma mulher preta. Ah, mas é um evento partidário? Vão usar a luta da Marielle para fazer política? Que tipo política? Pensei, mandei um áudio para uma amiga e decidi ir. Sem falas, só pra observar. Levei minha caderneta amiga e anotei algumas coisas que me chamaram atenção e agora divido com vocês.

Observei que praticamente não haviam negros na manifestação, que foi feita na praça do centro da cidade, somente uns quatro ou cinco. Aquelas pessoas discursavam e falavam de uma realidade, que a maioria delas não conhecia, a realidade da mulher negra e favelada. Uma militante de um partido político falava e em seu discurso usou a seguinte frase: “esquerda inteira sofre”. Lembrei-me de uma frase, de Sueli Carneiro, ouvida algumas vezes na militância: “Eu, entre esquerda e direita continuo preta”. E foi assim que segui no evento, eu, mulher preta e invisibilizada. À minha volta só brancos e na maioria universitários, as mesmas pessoas de sempre falando pros mesmos de sempre.

De repente, um movimento que até então parecia de mulheres, abre o microfone para homens. Infelizmente, o evento perde o foco e a politicagem aparece. Falas sobre o que eu fiz ou não na cidade envolvendo uma das maiores empresas do município. Não desmereço o trabalho de ninguém, só não cabia ao evento. Não contente com isso, ouço a seguinte frase: “Estou bastante animado porque a morte de Marielle não calou os movimentos”. Animado? Muitos pretos já caíram, desde a escravidão, e nossa luta não cessa. De acordo com a Atlas da Violência de 2017, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Quantos mais serão tombados? Não subestimem a força do povo preto, não subestimem as mulheres pretas. Elas, mais do que ninguém, sabem o que é enfrentar, resistir, sobreviver. Mais uma vez me questiono, porque esse povo branco do velho oeste protesta, por uma mulher negra? Estariam se aproveitando de modo inoportuno?

Para salvar a noite, um menino chamado Luiz fez a melhor fala. Lembrou que favela também existe aqui. Que temos pretos e pobres nos bairros periféricos e que essas pessoas também sofrem com a violência cotidiana, o tráfico e falta de oportunidades. Ao meu ver foi uma excelente fala completada com rap. Como dizia Carolina Maria de Jesus no livro Quarto de Despejo: diário de uma favelada, “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo.”

Aí vocês me perguntam e eu também me perguntei: porque não me manifestei? Porque não é a esse povo a quem eu quero falar. Esse povo não me entende e não está interessado na minha fala. São as pessoas que me veem mas não me enxergam, que me escutam mas não me ouvem. Quero falar com quem realmente me entende. Aquela amiga da universidade, única negra da sala que sente pressionada e excluída. Aquela mãe de família que se encoraja a retomar os estudos. Aquele jovem que trabalha desde cedo e dorme a noite durante a aula ou que falta para fazer hora extra. Aquela amiga que está em uma relação abusiva. A minha militância é no dia a dia. Não faço militância de palanque. Minha militância está em minha sobrevivência, resistência e luta. Eu, mulher preta, professora e dissidente!

Estou certa? Não sei. Penso que serei criticada por colegas, mas preservo minha saúde mental. Aceito minhas fragilidades e tento melhorá-las. Sou de uma geração que ouviu dos pais: você tem que ser a melhor. Como bem explicita os Racionais em A Vida é um Desafio, “Desde cedo a mãe da gente fala assim: filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. Aí passando alguns anos pensei: Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses…por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?”

Hoje entendo que tenho que ser a melhor nem sempre é ser a mais saudável, a mais feliz. Somos guerreiras, somos fortes, mas temos limitações e precisamos reconhecê-las pra evoluir. Não vamos alimentar o mito da mulher negra e forte. Somos humanas! Também precisamos de ajuda, apoio, acolhimento, gentileza e valorização. Você pode lutar e resistir de várias formas. Escrever também é uma forma de resistir. Dê um passo de cada vez. Seja legal com você mesma e lembre-se: uma sobe e puxa a outra!

Texto de Patrícia Andréia Muniz No dia 23 de março de 2018 recebi no Facebook um convite para um evento em minha cidade intitulado: Marielle Vive. Pensei o quão curioso era em Toledo, cidade do oeste do estado do Paraná, formada por colonos sulistas, considerada a “Capital do Agronegócio, ter um evento em memória de […]

Texto de Patrícia Andréia Muniz

Agência Brasil EBC
Fotógrafo Guilherme Cunha

No dia 23 de março de 2018 recebi no Facebook um convite para um evento em minha cidade intitulado: Marielle Vive. Pensei o quão curioso era em Toledo, cidade do oeste do estado do Paraná, formada por colonos sulistas, considerada a “Capital do Agronegócio, ter um evento em memória de uma mulher preta. Ah, mas é um evento partidário? Vão usar a luta da Marielle para fazer política? Que tipo política? Pensei, mandei um áudio para uma amiga e decidi ir. Sem falas, só pra observar. Levei minha caderneta amiga e anotei algumas coisas que me chamaram atenção e agora divido com vocês.

Observei que praticamente não haviam negros na manifestação, que foi feita na praça do centro da cidade, somente uns quatro ou cinco. Aquelas pessoas discursavam e falavam de uma realidade, que a maioria delas não conhecia, a realidade da mulher negra e favelada. Uma militante de um partido político falava e em seu discurso usou a seguinte frase: “esquerda inteira sofre”. Lembrei-me de uma frase, de Sueli Carneiro, ouvida algumas vezes na militância: “Eu, entre esquerda e direita continuo preta”. E foi assim que segui no evento, eu, mulher preta e invisibilizada. À minha volta só brancos e na maioria universitários, as mesmas pessoas de sempre falando pros mesmos de sempre.

De repente, um movimento que até então parecia de mulheres, abre o microfone para homens. Infelizmente, o evento perde o foco e a politicagem aparece. Falas sobre o que eu fiz ou não na cidade envolvendo uma das maiores empresas do município. Não desmereço o trabalho de ninguém, só não cabia ao evento. Não contente com isso, ouço a seguinte frase: “Estou bastante animado porque a morte de Marielle não calou os movimentos”. Animado? Muitos pretos já caíram, desde a escravidão, e nossa luta não cessa. De acordo com a Atlas da Violência de 2017, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Quantos mais serão tombados? Não subestimem a força do povo preto, não subestimem as mulheres pretas. Elas, mais do que ninguém, sabem o que é enfrentar, resistir, sobreviver. Mais uma vez me questiono, porque esse povo branco do velho oeste protesta, por uma mulher negra? Estariam se aproveitando de modo inoportuno?

Para salvar a noite, um menino chamado Luiz fez a melhor fala. Lembrou que favela também existe aqui. Que temos pretos e pobres nos bairros periféricos e que essas pessoas também sofrem com a violência cotidiana, o tráfico e falta de oportunidades. Ao meu ver foi uma excelente fala completada com rap. Como dizia Carolina Maria de Jesus no livro Quarto de Despejo: diário de uma favelada, “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo.”

Aí vocês me perguntam e eu também me perguntei: porque não me manifestei? Porque não é a esse povo a quem eu quero falar. Esse povo não me entende e não está interessado na minha fala. São as pessoas que me veem mas não me enxergam, que me escutam mas não me ouvem. Quero falar com quem realmente me entende. Aquela amiga da universidade, única negra da sala que sente pressionada e excluída. Aquela mãe de família que se encoraja a retomar os estudos. Aquele jovem que trabalha desde cedo e dorme a noite durante a aula ou que falta para fazer hora extra. Aquela amiga que está em uma relação abusiva. A minha militância é no dia a dia. Não faço militância de palanque. Minha militância está em minha sobrevivência, resistência e luta. Eu, mulher preta, professora e dissidente!

Estou certa? Não sei. Penso que serei criticada por colegas, mas preservo minha saúde mental. Aceito minhas fragilidades e tento melhorá-las. Sou de uma geração que ouviu dos pais: você tem que ser a melhor. Como bem explicita os Racionais em A Vida é um Desafio, “Desde cedo a mãe da gente fala assim: filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. Aí passando alguns anos pensei: Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses…por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?”

Hoje entendo que tenho que ser a melhor nem sempre é ser a mais saudável, a mais feliz. Somos guerreiras, somos fortes, mas temos limitações e precisamos reconhecê-las pra evoluir. Não vamos alimentar o mito da mulher negra e forte. Somos humanas! Também precisamos de ajuda, apoio, acolhimento, gentileza e valorização. Você pode lutar e resistir de várias formas. Escrever também é uma forma de resistir. Dê um passo de cada vez. Seja legal com você mesma e lembre-se: uma sobe e puxa a outra!

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